Pedagogia da Brincadeira

 

 

O MAC tem um jeito de educar: a brincadeira. O jeito de fazer, o canal de acesso à compreensão e construção de saberes, para o MAC, é a pedagogia da brincadeira articulada com o método Ver, Julgar e Agir.

Mergulhar na vida das crianças, colocar-se no lugar delas, partir da vida, significa em primeiro lugar levar a sério e cair na brincadeira com elas. Cultivar a brincadeira como algo que humaniza, a partir da vivência da complexidade e contradições da própria infância. Cultivar a brincadeira não só como lugar de reprodução da sociedade, mas como lugar de construção da vida, afirmando, negando, construindo outras realidades.

O grande encontro das crianças acontece na brincadeira, como conclui Tagore num belo poema: As crianças se encontram na praia dos mundos sem fim. A tempestade vagueia pelo céu sem caminhos; soçobram navios nos ínvios mares; a morte anda as soltas, e as crianças brincam. Na praia dos mundos sem fim é que se dá o grande encontro das crianças. [1]

BRINCADEIRA É COISA SÉRIA! Todo mundo sabe que as crianças gostam mesmo é de brincar. Brincar é sua vida, sua expressão mais espontânea e original, sua atividade principal, sua atmosfera. A brincadeira, o jogo, a história, o conto, tornam-se instrumentos e subsídios nos processos educativos e de evangelização das crianças e dos(as) adolescentes, sobre a realidade e o mundo a seu redor; eles são o espelho da sociedade, dos valores e costumes, ajudando a enxergar o jogo de forças e interesses, e a perceber os desafios. É preciso educar o “olhar do(a) acompanhante” a cada brincadeira, educar seu ouvido a cada cantiga, a cada história, sensibilizá-lo(a) para os elementos que cada coisa oferece para a reflexão. Criar a pedagogia e a didática da brincadeira, da cantiga, da historinha. [2]

 

Os sentidos da brincadeira para o MAC

 

O MAC sempre deu uma importância muito grande à brincadeira. Brincar, além de ajudar na educação é parte da vida da criança, é um direito e uma necessidade. Para a criança a brincadeira é tão importante quanto a comida. O MAC sempre defendeu que brincar é um direito inalienável e que toda criança tem direito a tempo, condições e espaço de lazer. Muitas ações de crianças foram realizadas para conquistar e garantir esse direito.

O brincar, dotado de natureza livre, parece incompatibilizar-se com a busca de resultados, típica de processos educativos. Como reunir dentro da mesma situação o brincar e o(a) educador(a)? A brincadeira humana supõe contexto social e cultural, é um processo de relações interindividuais e, portanto, de cultura. É preciso partir dos elementos que a criança encontra em seu ambiente imediato, em parte estruturado por seu meio, para se adaptar às suas capacidades.

Os(as) acompanhantes, de preferência do mesmo meio social das crianças, aprendem a mergulhar na vida de cada criança, a entrar em suas brincadeiras, a admirar o coração de cada uma naquilo que ela expressa ou esconde, a acompanhar o seu crescimento a partir da brincadeira. Na medida em que se inserem no universo infantil, os(as) acompanhantes percebem que, nessa iniciação progressiva na brincadeira, a criança aprende a compreender, dominar e produzir uma situação específica, distinta de outras situações. A criança pode inventar, criar, tentar, nesse universo. E o que pode fazer o(a) educador(a)?

A criança brinca com o que tem nas mãos e na cabeça. A criatividade permite ultrapassar esse limite. A brincadeira dá testemunho da abertura e da invenção do possível, do qual ela é o espaço potencial do surgimento. A brincadeira que pode ser uma escola de conformismo social, de adequação às situações propostas, pode, do mesmo modo, tornar-se um espaço de invenção, curiosidade e experiências diversificadas. É preciso tentar saber quais as possibilidades da brincadeira, partir de uma análise de seus aspectos específicos, tal como é vivenciada pela criança.

As nossas publicações trazem a proposta de transformação de algumas brincadeiras que refletem a influência de uma sociedade marcada pelo individualismo, competição, concorrência e pela violência. Constatamos uma aproximação entre essa prática e a proposta dos(as) defensores(as) dos jogos cooperativos. Os jogos competitivos estimulam a desconfiança, o egoísmo, o individualismo, criam barreiras entre as pessoas, reforçam sentimentos de rejeição, incapacidade, inferioridade, fortalecem o desejo de desistir frente às dificuldades, são divertidos para algumas, há as que se sentem perdedoras, as que são excluídas por falta de habilidade, poucas são bem sucedidas.

Os jogos cooperativos são divertidos para todas as pessoas, pois todas se sentem ganhadoras e se envolvem de acordo com suas habilidades, estimulam o compartilhar e confiar, os(as) jogadores(as) ficam juntos(as) e desenvolvem suas capacidades, ensinam a ter senso de unidade e solidariedade, desenvolvem e reforçam a auto-estima, fortalecem o desejo de perseverar frente às dificuldades, todos(as) encontram um caminho para crescer.

Os lugares da brincadeira na Pedagogia do MAC

 

“Se você prestar bem atenção”, convida o folder de apresentação do MAC, “vai encontrar menino e menina por todo canto… Alguma coisa nova e maior poderá acontecer, se, de repente, alguém, com mais idade e experiência, se aproxima, se mete na brincadeira, no jogo, na conversa, se faz amigo ou amiga, conquista a confiança e, segundo as oportunidades, questiona ou informa, desperta ou apóia, provoca ou incentiva… E nesse caminhar juntos a turma vai tomando consciência da importância do que fazem e dizem, vão percebendo o sentido do que acontece em torno ou no meio delas, vão avaliando as próprias atitudes e construindo seus valores, vão desenvolvendo sua capacidade de planejar, organizar e empreender, vão se sentindo protagonistas!” [3]

Brincar por brincar

A brincadeira livre tem o seu espaço privilegiado na pedagogia do MAC. Se a gente pergunta às crianças o que fazem no seu grupo, elas respondem que brincam, cantam e outras coisas mais. São brincadeiras antigas da nossa tradição e brincadeiras novas. O grupo é o espaço da vivência e da criação. Toda brincadeira tem o seu valor e contribui para o desenvolvimento integral da criança, na complexidade do mundo ao qual ela atribui significados. Trata-se de considerar a brincadeira como um espaço onde a criança aprende a lidar com esse mundo complexo e com as contradições que ele apresenta, e, como educador(a), fazer-se presente ajudando a desenvolver valores afirmativos da solidariedade, autonomia, responsabilidade e respeito à diversidade.

Brincar para analisar

Em uma carta dirigida aos acompanhantes em dezembro de 1975, Alcino Ferreira e Reginaldo Veloso escrevem: “Estamos preocupados com aquilo que as crianças expressam em suas brincadeiras. Se a gente olhar bem de perto as brincadeiras das crianças, a gente vai descobrir que o mundo das crianças, o mundo das brincadeiras, não é outro senão o mundo de todos nós. Esse mundo, essas brincadeiras, onde impera a lei do mais forte, o espírito de competição e concorrência, a sede de ganhar, onde o mais pequeno, o menos esperto, o fraco não tem vez, é botado para trás, onde quem não quer competir, quem não quer ganhar, não tem vez, não tem graça”. Será que pelo menos depois de certas brincadeiras, concluem, a gente não podia sentar junto e conversar um pouco sobre o que se passou na brincadeira? Ver como cada um se sentiu, ir analisando com elas e ligando com outras coisas da vida?

Não se trata de impedir que as crianças brinquem, mas de reconhecer que brincam, cantam e dançam em contextos que afirmam e/ou negam a vida e de dialogar num ato pedagógico que possibilita análises.

Brincar para transformar as brincadeiras

Uma presença gratuita e atenta é acompanhada de um olhar crítico, que percebe brincadeiras que ajudam a criança e brincadeiras que atrapalham, brincadeiras que passam a idéia de escravidão e outras que passam a idéia de libertação, e que se propõe ajudar as crianças a descobrir novas maneiras de brincar, transformar suas brincadeiras, criar brincadeiras libertadoras, ir tomando gosto por uma brincadeira diferente, por um mundo novo que vai nascendo de suas brincadeiras.

Quando afirmamos que há brincadeiras escravizadoras e libertadoras, devemos afirmar também a complexidade da brincadeira, atentar para o fato de que numa mesma brincadeira tem elementos que libertam e escravizam, pessoas que se deixam escravizar e pessoas que se deixam conduzir por atitudes libertadoras, e que devemos lidar com as contradições do mundo expressas nas brincadeiras.

Em suma, é muito importante para o MAC:

  • Conviver com as crianças em suas brincadeiras livres, cair na brincadeira com elas, entregar-se de corpo e alma a essa excitante tarefa.
  • Estar atento(a) a tudo que se passa, identificar os momentos, os gestos, as atitudes de amizade, de partilha, de solidariedade, de serviço, de justiça, de atenção ao mais fraco, como também dar-se conta de cada atitude egoísta vivida nas brincadeiras, gestos que revelam espírito de ambição, competição, ânsia de ganhar sempre, atitudes de dominação, querer sempre mandar, impor sua vontade, atitudes, idéias, expressões machistas, racistas; marginalização do mais fraco, do menos inteligente ou habilidoso; exploração do menos vivo, do menos astuto, do mais disponível ou generoso.
  • Analisar de vez em quando, entre os acompanhantes e com as crianças, uma das brincadeiras e as atitudes das crianças ao brincar.
  • Ajudar as crianças a recriar ou criar novas brincadeiras, passando a se brincar de um Mundo Novo.

Não se trata, portanto, de utilizar-se da brincadeira, uma vez que a brincadeira tem um fim em si mesma. Se a pedagogia da brincadeira coloca questões, é fundamental compreender a importância de educar o olhar, de ser uma presença gratuita e atenta, de colocar-se com o coração e a consciência na dinâmica dos jogos e brincadeiras, e de contribuir para que este tempo mágico seja também o momento mais favorável de caminhar com as crianças e acompanhá-las no seu crescimento como pessoas e como cidadãos(ãs).

[1] TAGORE, Rabindranath. Na praia, em: A lua crescente. José Olympio, 1942.

[2] Carta de Princípios do MAC, em: Reorientação do Projeto Político-Pedagógico do MAC, Documento Inicial, 2000, pág. 4 e 5

[3]VELOSO, Reginaldo. Um Movimento de Adolescentes e Crianças, em: Folder de apresentação do MAC. Falta o ano