O Dom

PASTOR DA IGREJA SEM FRONTEIRAS… PROFETA DA NOSSA HISTÓRIA

Retratando “O DOM…”
HÉLDER CÂMARA (1909 – 1999)
(Fonte: Jornal Igreja Nova)

por Frei Beto

Dom Helder Câmara até ontem, como diz são Paulo na 1a. Carta aos Coríntios, conhecia Deus “como por um espelho, de modo confuso”. Agora, conhece-O “face a face”.

Meu primeiro contato com o “arcebispo vermelho” foi em 1961, quando eu era dirigente, em Minas, da Juventude Estudantil Católica e ele, bispo responsável pela Ação Católica Brasileira. No ano seguinte, levou-me para o Rio, para participar da direção nacional da JEC. Convivemos durante três anos. Ele tinha seu escritório no palácio São Joaquim, no Largo da Glória. Do outro lado da praça, sob o Outeiro, ficava a sede da CNBB, da qual dom Helder foi o fundador e, por muitos anos, secretário-geral. As refeições, ele tomava num botequim da esquina, entre pedreiros e cachaceiros.

Na Igreja católica, foi o pioneiro do movimento renovador conhecido por “opção pelos pobres”. Fundou a Cruzada São Sebastião, empenhado em sua utopia de erradicar as favelas cariocas. Não deu certo. Instalados em apartamentos, os favelados, instigados pela miséria, arrancavam torneiras, encanamentos e instalações elétricas para vender, e muitos sublocavam a moradia em busca de renda.

Dom Helder Câmara descobriu então que uma só andorinha não faz verão e que a pobreza não resulta da indolência, mas de “estruturas injustas”, conforme faria constar, em 1968, no documento episcopal de Medellín. Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), o “bispo dos pobres” promoveu uma articulação entre cardeais e bispos de todo o mundo em favor da inserção da Igreja nos setores populares. Propôs ao papa João 23 entregar o Vaticano e suas obras de arte aos cuidados da UNESCO, como patrimônio cultural da humanidade, enquanto o papa passaria a morar, na qualidade de bispo de Roma, numa paróquia da capital italiana.

Ele sonhava com uma Igreja menos imperial e mais parecida com a comunidade dos pescadores da Galiléia. No Rio, dom Helder Câmara contava com o apoio de um grupo de leigos, homens e mulheres, conhecido como “a família messejanense” – referência à Messejana, distrito cearense no qual nasceu. A “família” teve o privilégio de receber, em forma de cartas, o diário do arcebispo durante o Concílio, onde ele narra, sem censura, os bastidores do conclave – documento de inestimável valor a ser divulgado após a sua morte. Dom Helder nunca cedeu às pressões de quem pretendeu torná-lo, como JK, prefeito do Rio, senador e até presidente da República. Arcebispo de Olinda e Recife, jamais aceitou morar em palácio. Fez dos fundos de uma igreja sua casa e ali ele próprio atendia à porta a quem batia.

Com certeza, nenhum brasileiro foi tão biografado. A maioria das obras é assinada por autores estrangeiros, embora ele tenha conseguido o milagre de ser profeta em sua própria terra. Integralista na juventude, progressista na idade adulta, dom Helder sempre surpreendeu a quem quis enquadrá-lo em jargões. Sob a ditadura militar, dialogou com os generais que o censuravam na mídia e socorreu os perseguidos e os presos políticos na defesa intransigente dos direitos humanos.

Sua fama no exterior – entre brasileiros, só comparável à de Pelé – levou a Polícia Federal, sob o regime militar, a oferecer-lhe segurança. Brasília temia que ele sofresse um atentado. Dom Helder disse aos policiais: “Não preciso dos senhores. Já tenho quem cuida de minha segurança”. Os agentes pediram os nomes. Precisavam de registro nos órgãos oficiais. O bispo não se fez derogado: “São o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Certa noite familiares aflitos procuraram dom Helder. Um homem tinha sido preso e estava sendo espancado na delegacia. O prelado ligou para o delegado: “Aqui é dom Helder. Está preso aí o meu irmão”. O policial levou um susto: “Seu irmão, eminência?” Dom Helder explicou: “Apesar da diferença de nomes, somos filhos do mesmo pai”. O delegado desmanchou-se em desculpas e mandou soltar o preso irmão do arcebispo.

Filhos do mesmo Pai… Assim era dom Helder, um homem evangélico, simples, sem firulas episcopais. E como tinha muita fé, jamais conheceu o medo. E amou de todo o coração essaIgreja que tanto quis ver renovada e, no entanto, jamais concedeu-lhe o merecido título de cardeal. Faltou este homem na galeria do Prêmio Nobel da Paz. Com certeza o futuro cumprirá a justiça de entronizá-lo entre aqueles que são venerados como santos.

por Marcelo Barros
Já ao longe, nos últimos anos, acompanhei a sua campanha por um 2000 sem miséria. Em 1996, ele escreveu junto com o Abbé Pierre que o visitava no Recife: “Temos mais de 80 anos e ainda há muitas coisas a fazer para recolocar em ordem o mundo. Com as pequenas forças que nos restam, continuaremos a combater contra a miséria”.
Dom Helder faleceu um dia após a marcha que reuniu milhares e milhares de pessoas em Brasília num grande protesto contra o governo. Os jornais discutem se, na manifestação havia os cem mil previstos pelos movimentos populares ou se apenas os 40 mil calculados pelos governistas. Se pudesse, Dom Helder lhes repetiria hoje o que proclamava há vinte anos e, de fato, é a única coisa que tem importância: “Quem é despertado para as injustiças geradas pela má distribuição da riqueza, se tiver grandeza d’alma captará os protestos silenciosos ou violentos dos pobres. O protesto dos pobres é a voz de Deus”.

Palavra do Profeta:
” Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo.”… (Poema do Dom, Afinador)
“Ninguém se escandalize quando me vir frequentando criaturas tidas como indignas e pecadoras. Quem não é pecador?” (Dom Helder, em seu discurso de posse na Arquidiocese de Olinda Recife, 12/04/1964)
“A Imagem que eu desejaria que ficasse de mim é a imagem de irmão. Irmão de todos porque todos temos um só pai.”(JC)