Carta de Princípios do MAC

Criança é Gente! 
É pessoa humana, com expressão própria. Na sua originalidade, é capaz de pensar e criar, capaz de opinar sobre o seus interesses, capaz de iniciativa e participação, capaz de assumir tarefas, agir, interagir e transformar seu ambiente.

Partir da Vida!
Há um jeito de caminhar com elas no MAC: a partir da vida, do jeito que elas percebem e se expressam, ajudando-as a

  • descobrir a fonte que está, antes de tudo, dentro delas mesmas (auto-estima!) e no meio do seu povo
  • acordar para o horizonte, iluminadas pelos ideais humanistas, sobretudo pela fé no Evangelho
  • atravessar a ponte com seus próprios pés, junto com todo o povo, através das atividades do seu gosto e prazer:
    – a brincadeira, os jogos,
    – as artes e artesanatos,
    – os passeios e piqueniques,
    – As Festas e Festivais,
    que são o Clima, o Espaço, a Oportunidade propícia para despertá-las
  • para a importância do coleguismo, do companheirismo, da amizade
  • para a compreensão de sua realidade, do seu mundo
  • para a consciência de Direitos e Deveres
  • para a vontade de mudar, de construir o novo, a solidariedade,
  • para as motivações humanísticas e evangélicas, que mantém viva a chama e os critérios
  • para a organização e participação em grupos, na vida e nas lutas de todo o povo, o exercício da Cidadania . (Reencontro/MAC – julho/1998)

Brincadeira é Coisa Séria! 
Todo mundo sabe que as crianças gostam mesmo é de brincar… Brincar é sua vida… sua expressão mais espontânea e original… sua atividade principal, sua atmosfera. A brincadeira educa e deseduca, escraviza e liberta, os gestos, as atitudes de amizade, de partilha, de solidariedade,de serviço, de justiça, de atenção aos mais fracos, nas quais concretizam o Reino de Deus, o Mundo Novo; mas também é possível identificar as atitudes egoístas, gestos que revelam o espírito de ambição, de competição, atitudes de dominação, de idéias e expressões machistas, racistas, de marginalização, de exploração, de violência… (Um Movimento de Crianças)
A Brincadeira é coisa séria mesmo. Nós acreditamos. Por isso é importante.
É missão do MAC, neste mundo de hoje, da tecnologia, da mídia, da cultura de massas, da massificação alienante do povo, resgatar as brincadeiras tradicionais, as antigas cantigas de rodas, os jogos tradicionais, as músicas do folclore infantil, os contos, as”histórias de trancoso”, que constituem as raízes de nossa identidade cultural… apreciar os gestos e atitudes que aí se dão… ensinar para as crianças essas coisas, livrando-as da atenção exclusiva à televisão, aos programas que mutilam a sua mente e inculcam valores e práticas nocivos. A brincadeira, o jogo, a história, o conto, tornam-se assim instrumentos e subsídios no processo de conscientização e evangelização das crianças e dos adolescentes, sobre a realidade e o mundo a seu redor. São o espelho da sociedade, dos valores e costumes, ajudando a enxergar a trama, o jogo de forças e interesses, e a perceber os desafios. Mas é preciso educar o “olhar do acompanhante” a cada brincadeira, educar seu ouvido a cada cantiga, a cada história… Sensibilizá-lo para os elementos que cada coisa oferece para a reflexão. Criar a pedagogia e a didática da brincadeira, da cantiga, da historinha.

Conhecer a Vida das Crianças e Adolescentes 
Para caminhar com crianças e adolescentes e desenvolver o trabalho educativo é preciso conhecer-lhes as necessidades, as aspirações, os problemas… a vida das crianças e dos adolescestes. Ir até as casa delas e deles, cultivar uma convivência direta, pela presença pessoal, integrando ao trabalho feito no Grupo, os irmãos, os pais, a família.

As Ações das Crianças 
São elas, sobretudo, o momento, o lugar em que se realiza o seu Movimento… São a essência do seu Movimento… São a matéria prima de toda a reflexão delas e dos seus acompanhantes, em todos os níveis… São a escola, o livro, o roteiro do seu Movimento… são o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a atuação da pessoa que acompanha, do conjunto de atividades e da estrutura do Movimento.
(Livro: Um Movimento de Criança) 


Despertar no acompanhante o cuidado de estar atento a tudo que se passa na sociedade. Só assim, poderá ajudar crianças e adolescentes a tomarem consciência do que se passa, dos desafios de cada conjuntura, bem como dos seus direitos e deveres, das suas potencialidades e capacidades, da necessidade de ser sujeito, agente transformador do seu meio, do seu mundo, incentivando as pequenas ações que mais tarde transformarão em grande ações, levando as próprias crianças e adolescentes a valorizar cada passo que vão dando, cada pequena conquista, sua presença e participação na mudança da sociedade.

O Protagonismo das Crianças e Adolescentes 
O grande objetivo do Movimento é ver crianças e adolescentes, a partir de seus grupos, assumindo-se como sujeitos da sua história, da história do seus povo e do seu Movimento, construindo e assumindo instâncias de participação e representação, em todos os níveis: local, estadual, regional e nacional, apontando para nível latino americano e mundial. As Comissões de Crianças e Adolescentes já são uma prática consolidada.

Os Direitos das Crianças e dos Adolescentes 
Garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, serão sempre um referencial para a vida e a ação do Movimento. Conhecer estes direitos e divulgá-los, fazer deles um instrumento de avaliação da realidade vivida pelas crianças e adolescentes, fazer deles um instrumento de conscientização e de luta, é o mínimo que se pode esperar de um Movimento como o MAC.

O Evangelho, JESUS CRISTO! A Igreja da Libertação. 
O jeito de educar e conscientizar do MAC possui uma referência e inspiração que lhe dá uma identidade própria e inconfundível: Evangelho, a pessoa, a ação e a palavra de Jesus Cristo. Confrontar-se com o Evangelho e descobrir Jesus Cristo vivo na própria vida, nas brincadeiras, nas ações e nas lutas, com certeza será motivo de alegria e animação para muitas crianças e adolescentes, unidos e organizados em grupos “em nome de Jesus”. É à luz da experiência de Jesus Cristo que acompanhantes, crianças e adolescentes vão descobrindo os caminhos da Justiça, do Amor, da Solidariedade, da Partilha, da União, do Perdão, da Paz… que nos levam ao Reino, a uma sociedade justa, concretização do Projeto de Deus. Apoio e sustentação para os grupos de Acompanhantes, de crianças e Adolescentes serão as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), os Movimentos de Evangelização e as Pastorais Sociais, que caracterizam uma experiência eclesial de cunho libertador, a Igreja da Libertação. É importante que o MAC, através dos grupos de crianças e adolescentes, cumpra esse duplo papel: de ser uma presença da Igreja no meio das crianças e adolescentes, e de ser uma presença das crianças e adolescentes na Igreja. É igualmente importante que crianças e adolescentes, com seus acompanhantes, se sintam em Comunhão de fé com toda a Igreja, mas vivam, com espírito de autonomia e criatividade, a Missão que receberam de Jesus.

Consciência de Classe – Crianças e Adolescentes Trabalhadores 
O MAC é formado por crianças e adolescentes, filhos e filhas de trabalhadores, gente dos meios populares do campo e da cidade. Essa identidade de classe precisa de ser cultivada e assumida como fonte de inspiração, de solidariedade, de participação e de luta, nos grupos de crianças e adolescentes do Movimento. E uma atenção especial se dará às crianças e adolescentes trabalhadores, vítimas mais preocupantes de um sistema de opressão e, por isso mesmo, chamadas a ser os agentes de vanguarda da própria libertação.

Parceria 
É um forte apelo do momento: Movimentos, ONGs, Entidades afins, Conselhos Municipais, Estaduais e Federal de Direito da Criança e do Adolescente, Conselhos Tutelares, Fóruns… serão nossos aliados imprescindíveis na luta pelos direitos das Crianças e Adolescentes, na construção de um mundo onde crianças e adolescentes tenham seu espaço e sejam reconhecidas/os também igualmente como parceiros, com voz e voto.

A preservação do Meio Ambiente – A Natureza 
O cuidado com a Mãe Natureza e a preservação do Meio Ambiente é uma questão de sobrevivência, que se torna cada dia mais urgente na vida dos povos. Crianças e Adolescentes, a partir de seus grupos, serão sensibilizados e convocados a dar sua contribuição neste sentido.

Cuidado com a mídia! 
Como espaço de conscientização, os grupos de crianças e adolescentes precisam de estar atentos a tudo quanto rola na imprensa, no rádio e, sobretudo, na TV, para não se deixarem massificar pela publicidade consumista, pela propaganda ideológica, pelas mensagens perniciosas que descarada ou sublinarmente são veiculadas, dia e noite, todo dia… Acompanhantes, adolescentes e crianças precisam de ser alertados para o perigo de se tornarem marionetes dos meios de comunicação de massas, perderem sua identidade cultural e serem manipulados pelo sistema, em função de interesses, que não os das crianças e adolescentes do povo. Ao mesmo tempo, o Movimento precisa de aproveitar toda brecha e oportunidade para se fazer conhecido, passar sua mensagem, fazer as crianças e adolescentes do meio popular, seus interesses, sua denúncias e reivindicações, seus sonhos e esperanças, seus eventos e ações, serem notícia.

Um conceito abrangente de CULTURA 
Tudo aquilo que um grupo humano é capaz de produzir na sua relação com a Natureza e na convivência entre as pessoas, como jeitos permanentes e consagrados de ser e viver, isso é o que se chama CULTURA. Toda pessoa nasce no seio de um grupo humano determinado e, desde o nascimento, é envolvido por um determinado ambiente cultural, por uma cultura que marcará seu jeito de ser por toda a vida, a menos que seja desenraizado do seu habitat. O MAC precisa ser para todos os que dele participam um espaço de identificação e resistência cultural. Levar crianças e adolescentes a tomarem consciência dos valores da sua cultura de origem, conhecerem a história verdadeira do seu povo, gostarem mais do seu lugar, dos seus costumes e tradições, de suas brincadeiras e cantigas, por exemplo, pesquisá-los e cultivá-los, é tarefa interessante, prazerosa e de grande significado e valor para a sobrevivência cultural do povo, frente ao rolo compressor da chamada “cultura de massas”, que só serve aos interesses do mercado globalizado, enfraquecendo a identidade e auto-estima, a capacidade de afirmação e resistência do povo.